
Há momentos na vida de um país em que o silêncio deixa de ser uma opção. Este é um deles.
Tenho assistido, com crescente perplexidade, à violência dos ataques dirigidos ao ministro da Educação. Há quem lhe aponte falhas de planeamento, erros de execução, desorganização e falta de liderança. Francamente, não percebo a indignação. Desde quando esperamos esse tipo de coisas de um ministro? Sim, cometeram-se erros, mas sabem o que é pior que errar? É uma cultura avessa ao erro e ao risco. Queremos governantes com coragem para inovar ou gestores obcecados em que nada falhe?
Todas as grandes transformações da História tiveram os seus danos colaterais. Neste caso, calhou serem dezenas de milhares de alunos que poderão não conseguir ingressar no ensino superior. Paciência, é o preço do progresso. Daqui a uns anos, quando o sistema estiver finalmente afinado, haverá certamente muitos outros que beneficiarão dele. Infelizmente, quem ganha raramente faz tanto barulho como quem perde. É sempre assim.
Também me impressiona a indignação de alguns pais por terem perdido dinheiro em viagens ou alterado os seus planos de férias. Afinal, qual é a prioridade de um encarregado de educação: a educação dos filhos ou uma semana em Albufeira? O ministro disse-o, e muito bem: é imprudente colocar o lazer acima da educação. Se houve famílias que aprenderam esta lição da forma mais cara, então talvez o sistema já esteja a cumprir a sua função pedagógica.
Quanto aos professores, também não percebo as queixas. Tiveram um mês de julho particularmente duro? Tiveram. Mas encaremos isto pelo lado positivo: foi um excelente treino para agosto, quando terão de enfrentar um número recorde de reapreciações. Aliás, importa reconhecer outra decisão corajosa do ministro. Ao manter a taxa de 25 euros por reapreciação, este volume excecional de pedidos representará um fabuloso encaixe de milhões para o Estado, diretamente financiado pelas famílias imprudentes que insistem em querer confirmar se os exames dos filhos foram corretamente classificados. Uma visão orçamental notável. Em nome dos contribuintes, obrigado, Fernando.
E também não podemos cair no facilitismo de exigir que um ministro seja responsável pelo planeamento das mudanças promovidas pelo seu próprio ministério. Isso seria um precedente perigosíssimo. Hoje responsabilizamos um ministro pela reforma que decidiu fazer; amanhã ainda acabamos a responsabilizar um ministro pela gestão do ministério que tutela.
Desde o primeiro dia, Fernando Alexandre teve, aliás, um comportamento exemplar. Não desperdiçou tempo com inutilidades como pedidos de desculpa, reconhecimento de erros ou assunção de responsabilidades. Foi diretamente ao que interessa: um ajuste direto à Deloitte. Isto é liderança. Enquanto outros se preocupam em assumir responsabilidades, Fernando Alexandre prefere apurá-las.
Também foi particularmente esclarecedor quando deixou no ar a hipótese de que os verdadeiros responsáveis pelo caos seriam os professores, os diretores das escolas e o Júri Nacional de Exames. Uma conclusão perfeitamente plausível, até porque todos sabemos que o ministro da Educação pouco ou nada tem a ver com os organismos que tutela, nomeia ou coordena.
E foi sempre inteiramente transparente sobre tudo, desde logo ao insistir que o caos existia apenas na cabeça de pessoas incapazes de compreender a importância da reforma ou a genialidade do seu autor. Os críticos chamam-lhe uma trapalhada. Eu prefiro chamar-lhe uma fase transitória da excelência.
É por tudo isto que proponho uma homenagem nacional.
Ergamos uma estátua a Fernando Alexandre.
Não para celebrar um ministro que resolveu um problema, mas para eternizar o primeiro governante português que conseguiu transformar o fracasso numa prova de visão, a desorganização numa demonstração de coragem e a ausência de responsabilidade numa virtude política.
E, sobretudo, para homenagear todos os que descobriram, finalmente, que há erros que deixam de o ser quando são cometidos pelas pessoas certas.
Se esta estátua vier a ser inaugurada, proponho apenas uma condição: que seja construída sem projeto, sem planeamento e sem preparação.
Em nome da inovação.